Os olhos possuiam diante de sí a visão do paraíso enquanto os dedos finos e ligeiramente compridos tocavam-lhe a pele macia e bem cuidada. Logo, a boca aproximava-se, sedenta: também queriam participar da brincadeira. Os lábios cor de sangue roçavam pela face aveludada, deslizando sem pressa até a altura da orelha, seguindo pela curva do pescoço. As narinas captavam o melhor perfume já sentido: o cheiro dele. Os lábios continuavam a seguir o curso do prazer, um prazer próprio, um prazer comum. Do pescoço, descia pela clavícula. Os dedos voltavam ao jogo de toques e carícias, desempenhando o papel de alisar-lhe os ombros, cautelosos. Era uma escultura, uma verdadeira obra prima exibindo-se. Tê-lo alí, consigo, era de um valor inestimável. Os lábios persistiam, queriam explorá-lo ainda mais: assim, deslizavam pelo centro da caixa torácica, sem pressa. A língua teimosa lutava para escapar: queria sentir-lhe o gosto, o que não tardou a acontecer. Na altura do abdomem, pincelava-se úmida e quente. Os incisivos passaram a sentir-lhe a textura após algumas leves, porém firmes, mordidas depositadas na região. Desejá-lo. Sentí-lo. Tê-lo. Não haviam palavras para expressar tamanho frenesi que aquela mistura de sensações proporcionavam-na. Ali, ele era seu - e apenas seu.I’m here without you baby, but you’re still with me in my dreams ♪ Não demorou para que a música do despertador lhe penetrassem os ouvidos, fazendo com que os olhos se abrissem e se deparassem com a realidade: o outro lado da cama de casal estava ocupado apenas por uma porção de travesseiros, cúmplices de diversas aventuras vivenciadas pelos dois. O celular estava certo. Ela estava alí, sozinha. Porém, ele encontrava-se presente em sues pensamentos… Desde o dia em que se conheceram. A mão que antes tocava a pele macia de seu muso durante o mais belo dos sonhos apalpava o criado-mudo a procura do celular que cantarolava, executando o papel que fora programado a fazer: mostrar o início de mais um dia. Todavia, os dedos tatearam um instrumento gélido, impertinente à execução da tarefa designada: um porta retratos sobre o criado mudo, o pequeno baú que guardava um dos momentos do casal. O olhar fixo na lembrança, os pensamentos eufóricos e radiantes: apesar dos apesares, apesar de qualquer eventualidade que os separassem, a música que o celular executava estaria certa. Ele estaria lá. Sempre. Com ela. Em seus pensamentos - um lugar de onde ninguém poderia tirá-lo. Os lábios, antes frios, esboçaram um sorriso e entreabriram-se. Os músculos da boca moldavam-se em um biquinho superficial a medida que o sussurro era proferido: Win.
posted on: 05/02/2012 | Sunday | 17:24

